julho 19, 2003

A Verdade e a Crença

O cristianismo tem no seu fundo algumas subtilezas que são próprias do Oriente. Antes de mais nada, sabe que é em si inteiramente diferente que uma dada coisa seja verdadeira, mas que esta é da máxima importância contanto que seja tida como verdadeira. A verdade e a crença em que algo seja verdadeiro: dois mundos de interesses completamente divergentes, quase dois universos antagónicos, pois chega-se a um e a outro por caminhos diferentes. Ser sabedor a este respeito... quase basta para ser sábio no Oriente: assim o entendem os brâmanes, assim o entende Platão, bem como todo o discípulo da sapiência esotérica. Se, por exemplo, o facto de alguém se julgar liberto do pecado lhe traz alguma felicidade, pois não é preciso, como condição prévia para tanto, que o homem seja pecador, mas que se sinta pecador. Mas se, em geral, o que é necessário, antes de mais nada, é crença, então há que lançar o descrédito sobre a razão, o conhecimento, a pesquisa: o caminho para a verdade transforma-se em caminho proibido. A forte esperança é um estimulante muito maior da vida de qualquer ventura particular que realmente se concretiza. Tem que se manter de pé aqueles que sofrem, graças a uma esperança que não pode ser contradita por nenhuma realidade - e que não seja suprimida, ao ter cumprimento: uma esperança posta no Além. (Justamente por causa dessa capacidade de entreter o infeliz, era a esperança tida entre os Gregos como o mal dos males, como o mal autenticamente insidioso: foi ele que ficou na caixa de Pandora.) Para que o amor seja possível, Deus tem de ser uma pessoa; para que os instintos mais baixos possam também manifestar-se, Deus tem de ser jovem. Para o fervor das mulheres, há-de pôr-se em primeiro plano um belo santo; para o dos homens, uma Nossa Senhora. Isto, pressupondo que o cristianismo se queira impor num terreno, onde cultos de Afrodite ou de Adónis tenham já definido a concepção do culto. A exigência da castidade reforça a veemência e a interioridade do instinto religioso, tornando o culto mais quente, mais apaixonado, mais inspirado. O amor é aquela condição em que o ser humano mais vê as coisas tal como elas não são. É aí que a capacidade ilusória está no auge, do mesmo modo que a faculdade de edulcorar, de glorificar. Suporta-se no amor mais do que de costume, tolera-se tudo. Tratava-se, pois, de inventar uma religião em que se possa amar: assim, passa-se por cima do que há de pior na vida - até já nem sequer se dá por isso. Basta quanto às três virtudes cristãs: fé, esperança, amor, a que eu chamo as três espertezas cristãs. O budismo é demasiado tardio, demasiado positivista, para ainda ser esperto desta maneira.

in O Anticristo, Nietzsche

Publicado por dolphin.s em julho 19, 2003 02:23 PM
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