No cristianismo, os instintos dos subjugados e dos oprimidos aparecem em primeiro plano: são as castas mais baixas que procuram nele a sua salvação. Aqui pratica-se como ocupação, como remédio contra o aborrecimento, a casuística do pecado, a autocrítica, a inquisição da consciência; aqui mantém-se constantemente (através da oração) a afeição por um poderoso, chamado «Deus»; aqui, o mais elevado é tido por inacessível, por dádiva, por «graça». Aqui, falta também o que é público; o esconderijo, o sítio escuro são cristãos. Aqui, o corpo é desprezado, a higiene rejeitada como sensualidade; a Igreja opõe-se mesmo ao asseio (a primeira medida cristã, após a expulsão dos Mouros, foi o encerramento dos banhos públicos, dos quais só Córdova possuía duzentos e setenta). Cristão é um certo sentido de crueldade contra si próprio e contra os outros; o ódio contra os que pensam de outra maneira; a vontade de perseguir. Ideias lúgubres e emocionantes encontram-se em primeiro plano; as condições psíquicas mais procuradas, designadas com os nomes mais latos, são epileptóides; a dieta é escolhida de modo a favorecer manifestações mórbidas e sobreexcitar os nervos. Cristã é a hostilidade mortal aos senhores do mundo, aos «nobres» - e, ao mesmo tempo, uma competição indirecta, dissimulada (deixa-se-lhes o «corpo», apenas se quer a «alma»...). Cristão é o ódio contra o espírito, contra o orgulho, a coragem, a libertinagem do espírito; cristão é o ódio aos sentidos, aos prazeres dos sentidos, ao prazer em geral...
in O Anticristo, Nietzsche
Muito bom gosto na passagem de Nietzsche. Continua o bom trabalho!
Dito por: Conde no dia 29 de julho 2003, às 01h03brigado!
Nietzsche é Nietzsche... quaisquer palavras mais serão sempre supérfluas :)