julho 17, 2003

O leitor de Nietzsche

Friedrich NietzscheEste livro pertence àqueles leitores que são menos numerosos. Talvez até ainda não exista nenhum deles. Podem ser os que compreendem o meu Zaratustra: como me seria possível confundir-me com esses a quem, já hoje, se presta ouvidos? Só o depois de amanhã me pertence. Há alguns homens que nascem postumamente.
As condições em que a gente me entende e, depois, me entende necessariamente, conheço-as eu até com demasiada precisão. Tem de ser-se íntegro nas coisas do espírito até à dureza, só para suportar a minha seriedade, a minha paixão. Há que estar acostumado a viver em montanhas... a ver abaixo de si o deplorável mexerico da política e do egoísmo dos povos próprio da nossa época. É preciso a pessoa ter-se tornado indiferente, não devendo perguntar nunca se a verdade lhe é útil ou se vem a ser o seu fadário... Uma predilecção enérgica por perguntas, para as quais, hoje, ninguém tem coragem; a coragem para o que é proibido; a predestinação para o labirinto. Uma nova consciência para verdades que, até agora, permaneceram mudas. E a vontade de conseguir uma economia de grande estilo, mantendo junto um do outro a sua energia e o seu entusiasmo... O respeito por si, o amor a si, a liberdade incondicional perante si próprio...
Pois bem! Só esses são os meus leitores, os meus leitores adequados, os meus leitores predestinados: que importa o resto? O resto é apenas a humanidade. Há que ser superior à humanidade pela energia, pela elevação da alma... pelo desprezo...

Friedrich Nietzsche

Prefácio para O Anticristo

Publicado por dolphin.s em julho 17, 2003 10:04 AM
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