Os ataques de Nietzsche à ideia moderna de democracia têm como pano de fundo a convicção profunda (certamente baseada na sua experiência da Europa do seu tempo) de que existe uma sobreposição entre democracia e igualitarismo, ou seja, que a ideia de democracia está presa da ideia de indiferenciação entre os indivíduos que se anulam inevitavelmente.
in prefácio para O Anticristo, António Marques
Publicado por dolphin.s em maio 6, 2004 02:38 PMpois... esta é uma das questões que ainda não apreendi totalmente em N. - a sua posição face a conceitos como "igualitarismo", "indiferenciação", ou afirmações como "a desigualdade dos direitos é a condição necessária para que haja direitos", "a injustiça nunca reside na desigualdade dos direitos, ela está na reivindicação de direitos «iguais»..." (in "Anti-Cristo")
É um dos livros que vou reler.
Dito por: eduardo no dia 6 de maio 2004, às 17h25as pessoas não têm méritos iguais, não se esforçam de igual forma, não são igualmente inteligentes, ...
porque raio deverão ser vistas numa base igualitária? um licenciado pode dar aulas num pós-doutoramento? deverá considerar-se que um amante da telenovela das 8 possa ter tanta capacidade de discriminação estética, conceptual, de conteúdo como um leitor de Mann? se moram ambos no mesmo bairro da mesma cidade, em frente à biblioteca e a dois passos do mesmo museu?
temos todos a mesma capacidade para governar um país?
teremos, todos, o direito inalienável de nos desenvolvermos como pessoas? temos.
mas... nascemos todos com as mesmas potencialidades?
fazemos todos o mesmo para chegarmos a um nível menos básico?
somos todos iguais?
bem, só agora aqui vim, mas já nem vale a pena dizer nada.
disseste tudo jK :)
Dito por: dolphin.s no dia 6 de maio 2004, às 21h52quem inventou o igualitarismo, diz que as potencialidades são as mesmas para todos e qualquer um. o igualitarismo estará na meta, no fim. os meios para chegar lá podem ou não ser usados?
a pergunta é irrelevante, porque em primeiro lugar as potencialidades não são as mesmas! e, em segundo lugar, ninguém pretende ser igual a quem não se lhe assemelha e parece estar um degrau abaixo de qualquer coisa.
a intelectualidade, não deixa, contudo, de ser hiper-realista, julgando-se única e esquecendo os contornos da excepção: a excepção existe na materialidade da prata, ou seus substitutos. a prata sobe outros degraus, mas sobe! e afecta-se e arroga-se... sem perder assim tantas vezes a razão.
a conjugação possível entre prata e a intelectualidade permite, necessariamente, o desenvolvimento desta última, com lucro para a primeira.
de facto, não somos todos iguais, não nascemos com as mesmas potencialidades, não temos os mesmos méritos e q.i.s, não nos esforçamos todos da mesma maneira.
concordo que duas pessoas que não se esforçam da mesma maneira ou não têm as mesmas potencialidades não podem nem devem ter os mesmos direitos, desempenhar as mesmas funções, e por aí adiante.
não consigo é concordar com a generalização e a catalogação simplista em bons e maus, fortes e fracos, superiores e medíocres.
as coisas serão assim tão lineares? é que além desses factores distintivos há outros que podem interferir ou não no que somos. também não temos todos as mesmas oportunidades à partida, à nascença, não entramos e vivemos os primeiros anos das nossas vidas com as mesmas condições sócio-económicas, familiares, afectivas, não temos todos acesso à mesma educação e instrução.
porque deve uma pessoa que lê e entende T.Mann (o que N. provavelmente consideraria um ser superior) ter mais direitos do que uma pessoa que segue a telenovela das 8, ou os concursos televisivos ou os jogos de futebol do seu clube (o que N., então, consideraria um ser «medíocre»)?
porque deve uma pessoa que consegue ser bem sucedida na vida, independentemente dos meios que tenha usado para chegar lá - evasões fiscais ou outras formas de corrupção, abandono e distanciamento afectivo da família, dos filhos, etc - ter mais direitos do que uma pessoa que vive uma vida mais modesta, mas não necessariamente inculta e sem mérito, por ser honesta ou ambiciosa q.b.? porque a primeira tem vontade de poder e conquista esse poder, à maneira dos antigos nobres guerreiros, guerreando, invadindo, pilhando, pisando, mas a segunda já não tem esse instinto predador e, como tal, nas palavras de N., é medíocre, fraca, doente?
eu entendo o que queres dizer, jk, pelo que tenho observado em muitas pessoas, pelas várias situações de que sempre vamos tomando conhecimento e até por experiência própria: olha, hoje, olho para mim e vejo uma medíocre débil, sem grandes méritos ou força; e reconheço que, assim sendo, não posso nem devo nunca esperar alcançar determinadas coisas na vida. sei isso.
entendo e concordo com muitas coisas, mas as generalizações..., e essa visão a preto e branco para que a terminologia usada por N. me remete... (mas, claro, não posso deixar de dizer que ainda li muito pouco do autor, não o suficiente sequer para ter a certeza de que entendo a sua "linguagem", daí as dúvidas, as questões, as interrogações que me surgem)
somos todos diferentes, excepto numa coisa em que somos absolutamente iguais: nenhum ser humano pede para nascer.
Se somos todos iguais porque é que somos diferentes?
Bem... pior que isto é os que procuram ser diferentes. Hoje em dia só é diferente quem quer ser igual... a outra hipótese esgotou :)
Isto é um vai e vem do caraças, não é?
Dito por: Luís F. Simões no dia 7 de maio 2004, às 02h29N. é perigoso, margem, pelo pouco que sei. :-) eu não consigo sonhar, quando o leio; tenho de me manter alerta! mas isso não é imediatamente negativo.
acho que, se tentarmos ir para além desses berros que ele dá (por exemplo, essa gritaria maniqueísta, de que falas) de vez em quando, encontramos um conteúdo intelectualmente sério (o que já não é pedir pouco). mas nós temos que estar lá!, para 'decidirmos' o que são berros e o que é 'pensamento'.
fazer-nos pensar, questionar, concordar, discordar,... não é negativo, pelo contrário.
N. tem uma "linguagem" que não me é facilmente acessível, talvez por isso ainda não tenha conseguido apreender o seu 'pensamento' em relação a algumas questões, como disse.
e eu, que tenho uma mente teimosamente dispersa, nem sempre a consigo manter em estado de 'alerta', jk ;)
bom dia a todos
anteontem li no blog SILENCIO, uma máxima de Nietzsche, e hoje estão lá outras e não a que eu muito keria... é possível darem-ma? era acerca do trabalho, dizia que os q muito trabalham mais não kerem q se eskecer de si próprios...
agradecia...
obrigado...
Somos todos diferentes por muitas razões. Mas acho que deviamos olhar para os homens mais pelas coisas em que todos são iguais, porque antes de sermos uma profissão ou de termos um determinado lugar na sociedade, somos todos Seres Humanos e cidadãos deste mundo e nisso somos todos iguais. Acho que são mais importantes os aspectos que temos em comum e que nos unem, do que as diferenças que têm uma origem muito mais aleatória e que também podem ter origem em opções pessoais.
Dito por: nao sei no dia 13 de maio 2004, às 21h45